26/03/2019 às 16h17min - Atualizada em 26/03/2019 às 16h17min

Como seguir em frente depois de um luto

Especialista ensina como devemos encarar o luto e onde buscar forças para continuar a vida após uma grande perda

André Luis Cia
Bruna Campanhol
“Por mais que a gente saiba que um dia ou outro perderemos as pessoas que amamos nunca estamos preparados para perdê-los. A dor desse luto vai nos acompanhar para sempre, mas cada um tem uma maneira diferente de aceitá-lo ou enfrentá-lo. Eu confesso que me entreguei num primeiro momento à essa dor”. O triste relato é da dona de casa Sebastiana Gandolfhi Gidaro, de 70  anos, mais conhecida como Nena que, num prazo de menos de três anos perdeu a irmã e o marido. “É como se um pouco da gente fosse junto com eles”, resume.
 Assim como Nena, a cada segundo, em algum lugar do planeta, diferentes pessoas passam pelo mesmo drama: o da separação de uma pessoa querida. Mas existe uma maneira correta de enfrentar essa dor? Diante de tantas tragédias recentes, como o massacre na escola de Suzano (SP), a barragem de Brumadinho, dentre tantos outros, fica uma pergunta:  "O que devemos fazer para superar esse sentimento de impotência?" Foi pensando na busca destas respostas que recorri à psicóloga Valentina Sarmento, especializada em lutos e perdas, para explicar como agir diante da morte.
Graduada em psicologia em 2009, Valentina tem duas especializações voltadas ao tema do luto: “Teoria, Pesquisa e Intervenção em Luto (2013/2014)”, e “Intervenções Psicológicas fundamentadas na Teoria do Apego- Prevenção e Tratamento de dinâmicas vinculares (2017/2018)”. Ela explica que escreveu sua monografia com o tema do  “Enfrentamento do Luto Parental Diante da Morte Violenta de um Filho”, com base numa revisão sistemática de literaturas já existentes no mercado. “Percebo que o luto parental é um dos lutos mais difíceis. Perder um filho já é algo grave para os pais, perdê-los de forma violenta torna-se um fator que pode complicar ainda mais o luto”, diz.
Valentina destaca ainda que o luto não tem início, meio ou fim, tampouco é vivido por meio de fases como a negação, choque, culpa ou aceitação. “É significativamente oscilatório e tem impacto no sistema familiar merecendo atenção cuidadosa, particular e ao longo do tempo”. Segundo ela, quando perdemos alguém você passa a ver a vida sob um novo ângulo, por um prisma diferente, no qual se faz necessário dar espaço também para o sofrimento. “É permitido sorrir e contar uma nova história, onde o amor na presença passa a ser vivido para o amor na ausência, mas sempre será um tipo de amor”. Nesta entrevista exclusiva ao portal Atualidade (PA), Valentina fala sobre o tratamento do luto, da ligação dele com a religiosidade, dentre outras coisas.
  1. Portal Atualidade (PA) A senhora chegou a passar por alguma experiência dolorosa com o tema? Como convive hoje com isso, já que é uma realidade inevitável a todos nós?
Valentina: Sim, tive algumas perdas na vida: avós paternos e maternos, tios, dois irmãos ainda bebês- era pequena e não me lembro bem-. Um deles foi antes de nascer. Já minha irmã foi no momento do nascimento. Perdi também um primo muito querido, além de amigos. Mas, sem dúvida, a maior perda foi de minha mãe quando eu tinha dez anos. Hoje eu convivo bem, lembro deles com carinho e, às vezes, quando da vontade de chorar, eu choro, me permito. Às vezes, dói mais, depende do momento.
  1. PA: Como e quando surgiu o seu interesse pelo tema do luto?
Valentina: Eu ainda estudava psicologia quando uma amiga, também psicóloga, me indicou um curso que ela achava interessante: “Atenção e Intervenção em Crises de Emergência Pós- Desastre". Ali tive meu primeiro contato com o tema, e já percebi que não me fazia mal estudar sobre o luto, ao contrário, quanto mais eu conhecia sobre o assunto, mais queria me aprofundar. Isso foi em 2008. Um ano depois fiz o segundo módulo. E em 2013, cursei uma especialização em luto e perdas. Todos os cursos foram realizados no Quatro Estações Instituto de Psicologia, de São Paulo, onde estudo até hoje.
  1. PA: Cada pessoa tem um momento diferente para enfrentar esse luto?
Valentina: Dependendo do momento que você estiver passando em sua vida esse luto será diferente, por exemplo, o luto de uma criança, de um adolescente, adulto  ou  de um idoso. São momentos diferentes na vida que influencia na maneira que você vive o seu próprio luto.
  1. PA: Como é trabalhado com os seus pacientes a questão do luto?  Como é feito esse tratamento e quanto tempo leva?  
Valentina: As pessoas me procuram porque perderam alguém e estão num sofrimento muito grande, o que é esperado e natural. No entanto, elas sentem que precisam de ajuda para enfrentar essa perda. O meu trabalho consiste em dar suporte psicológico à essa pessoa. Devo acolher e junto com ela enfrentar sua dor até que ela consiga caminhar sozinha e seguir em frente. Cada um tem seu próprio tempo, aos poucos, a pessoa vai percebendo que consegue seguir e vai interrompendo o processo de psicoterapia.
Para isso, o estudo sobre o tema é contínuo e necessário, pois as situações são complexas e o desafio de oferecer suporte adequado aos enlutados é grande.
  1. PA: Durante o tempo que vem trabalhando com isso, que conclusão (ões) a senhora tirou?
Valentina: Estudar e trabalhar com luto para mim é saber mais sobre a vida. O luto tem vida.
  1. PA: A senhora acredita que a forma de encarar o luto está diretamente ligada à religião ou espiritualidade da pessoa, já que cada religião tem uma maneira diferente de aceitar e encarar a morte? No seu caso, segue alguma doutrina?
Valentina: A religião e espiritualidade são fatores que influenciam no processo do luto, mas tem muitos outros fatores influenciadores também, como por exemplo,  quem era essa pessoa que morreu, qual o vínculo com ela, de que forma foi a morte, a idade que ela tinha, dentre outros. No meu caso, sou católica
  1. PA: Atualmente, a senhora trabalha em alguma instituição?
Valentina: Realizo um trabalho voluntário na Paróquia São Judas Tadeu, em Americana, desde 2012. Tenho também uma oficina de estudos sobre morte e luto, que chamo carinhosamente de OEMOLU. É um espaço onde compartilho com os Ministros de Exéquias da comunidade, e ali estudamos sobre o tema. Uma vez por ano junto com os ministros realizamos uma tarde de acolhimento para enlutados, que acontece sempre em novembro. Esse ano será a quinta edição.
SERVIÇO: Valentina Sarmento
www.valentinasarmento.com.br

Rua Peru, 636, Edifício Win Office Tower, Frezarim, Americana 






RECOMEÇAR É PRECISO 
Nena buscou na espiritualidade a força para reagir

Nena buscou na espiritualidade a força para reagir


Sebastiana, a Nena, buscou na espiritualidade um novo recomeço

“Quando perdi minha irmã a única sensação que tinha era de impotência. Eu já havia perdido um irmão, meus sogros, pais, mas a dor de perdê-la foi muito difícil porque tínhamos uma ligação muito forte. Ela era bem mais nova que eu, 56 anos, mas era como se fosse meu porto seguro”, explicou a dona de casa Sebastiana Gandolfhi Gidaro, a Nena. E se não bastasse o golpe de ter perdido a irmã de uma forma trágica e rápida, por embolia pulmonar, em 2015, Nena perdeu recentemente o marido Gentil Gidaro, com quem estava casada há mais de 40 anos, ou seja, quando a dor de um luto estava gradativamente sendo cicatrizada veio outra por cima. “Foram duas dores completamente diferentes, mas no caso dele, no fundo, eu já sabia que ele não teria muito tempo de vida, pois estava muito debilitado depois de um derrame que teve no passado. Dia após dia ele foi perdendo as forças”.
Só que, ao contrário do marido, sua irmã Eliete, ainda tinha muita sede de viver, aliás, era a alegria da família. A organizadora oficial de todos os eventos, a mais festeira e animada, a que cuidava de todo cardápio das festas, enfim, era a alegria e o ponto de comunicação de toda família, uma espécie de líder em todos os sentidos. “Quando ela se foi, acho que a sensação de vazio ficou em toda família. É como se a nossa alegria também tivesse ido um pouco também”.
Até hoje, três anos após sua morte, Nena confessa que, às vezes, se pega pensando na irmã, e que custa aceitar sua perda. Então, não contém as lágrimas. Em seu caso, recorreu à ajuda da espiritualidade para entender e tentar aceitar a perda. “Sou evangélica. Acredito que Deus só chama as pessoas quando elas cumpriram sua missão aqui na Terra. Sei que onde estiverem, tanto minha irmã quanto meu marido estão bem porque foram recolhidos por Deus, mas que é difícil e muito dolorido, isso é, porém, é o ciclo de nossas vidas, nascemos para morrer para a vida eterna”.  (ALC)

SENTINDO NA PRÓPRIA PELE  

Meu primeiro livro: Desejo de viver foi a salvação para sair do luto 

“Perdi minha mãe há pouco mais de três anos. Até hoje, a dor me consome. Muitas vezes, sorrio por fora porque a vida tem que continuar, mas somente eu sei como estou por dentro, e como foi e está sendo difícil continuar sem tê-la por perto, sem ouvir sua voz, sua alegria de viver ou sentir seu carinho. Ah, como é difícil! Ainda hoje me pergunto se é verdade. Se não estou passando por um pesadelo. Fecho os olhos e imagino que a qualquer momento vou vê-la de novo entrando pela porta. Depois, caio literalmente na real e descubro que meu pesadelo é verdadeiro: nunca mais vou vê-la (pelo menos nesse plano, pois tenho a esperança de reencontrá-la em outro mundo).
No meu caso específico, quando a perdi, tinha dois únicos caminhos: seguir em frente apesar da dor que me consumia literalmente ou me afundar na depressão que quase me levou a cometer uma besteira. Confesso: quando ela se foi, muitas vezes, pensei em me matar também. Prá mim, nunca mais haverá dor maior. Perder minha mãe foi o limite. Creio que, a partir de agora, todas as outras dores serão mais facilmente “digeridas”, por mais que eu saiba que ainda vou sofrer por perder pessoas que amo. O que me ajudou naquela época (2015) foi buscar ajuda profissional, e devo isso à minha psicóloga Nádia Bessi. Foi ela quem me deu forças para prosseguir e me ajudou a buscar dentro de mim forças para lutar pelo último desejo de minha mãe: o de que eu escrevesse sua história de lutas e de superação (foi atropelada e perdeu o movimento dos pés aos 36 anos. Nunca mais pôde senti-los) num livro, porque ela acreditava que isso ajudaria outras pessoas a nunca desistirem de viver. E foi assim que nasceu o livro “Desejo de Viver”, lançado em Americana em 2016, e que consegui lançar também em Dublin, em 2017. Encontrei na minha própria dor o combustível que me fez prosseguir nesse novo recomeço”. (Por André Luis Cia-Testemunho pessoal)   
 
 

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Publicado por Portal Atualidade em Terça-feira, 29 de maio de 2018